terça-feira, 22 de Abril de 2014

O Filão

Navegar pelo arquivo de fotografias de Nina Leen para a revista LIFE é encontrar um filão de imagens duma estranheza subtil (ver A estranheza doméstica).
E é simultaneamente uma surpresa e uma diversão.

Nina Leen,
A  modelo  Vikki Dougan usando traça postiça junto
a vários suportes de peruca,
E.U.A., 1952
imagem obtida aqui

Nina Leen,
Colégio feminino,
E.U.A., sem data
imagem obtida aqui

Nina Leen,
Homem com almofada de Hedy Lamarr,
Nova Iorque, E.U.A., 1947
imagem obtida aqui

Nina Leen,
Roupa de atar,
E.U.A., sem data
imagem obtida aqui

Nina Leen,
As tranças das trigémeas,
E.U.A., sem data
imagem obtida aqui

Nina Leen,
Sem título,
E.U.A., sem data
imagem obtida aqui

Nina Leen,
Tratamento,
E.U.A., sem data
imagem obtida aqui


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terça-feira, 15 de Abril de 2014

A estranheza doméstica

Serge Balkin,
Nina Leen,
E.U.A., 1945
imagem obtida aqui

Nina Leen foi uma fotógrafa que, sem pertencer aos quadros, colaborou longamente com a famosa revista LIFE, de 1940 a 1972.

Nascida na Rússia em data que não se consegue precisar (um segredo que guardou ciosamente), cresceu em vários países europeus e finalizou os seus estudos na Alemanha, país que abandonou no ano certo, 1939, a caminhos dos Estados Unidos, onde acabaria por obter a naturalização.

Na LIFE nunca foi a fotógrafa dos grandes assuntos e dos grandes factos, razão que provavelmente a remete para um relativo desconhecimento público. O seu universo era o dos assuntos secundários, das curiosidades, da felicidade banal. Fotografou artigos de moda, reportagens sobre o mundo feminino e adolescente, eventos invulgares e muitos, muitos animais, o seu tema de eleição.

Mas Nina não era uma simples bate-chapas (designação que, na gíria foto-jornalística portuguesa de há uns anos,  designava os profissionais do meio que, sem talento nem técnica, fotografavam com rotina burocrática qualquer coisa que lhe dessem como serviço).

Há no seu trabalho uma marca-de-água perfeitamente reconhecível. De trabalhos que outras pessoas achariam um tremendo tédio (e uma parvoíce), Nina Leen conseguia extrair uma assinalável tensão, dando-lhe um interesse à partida nada expectável.
Das suas aventuras no quotidiano americano brotava uma particular estranheza. Perscrutava a normalidade, essa fortificação de portas blindadas, com olhar clínico e instinto predatório, e conseguia capturar a loucura que nela penetrava pelas frestas das janelas, pela porta dos fundos e pela cancela do gato. Não uma loucura exagerada, rompante, que parte prateleiras, mas antes a demência familiar, domesticada, que se insinua suavemente, tolerada como parte da mobília.
Leen extraia com meios realistas a irrealidade do dia-a-dia e da convenção, num exercício que não desagradaria aos Surrealistas, seus contemporâneos.

Abaixo, segue um exemplo: uma reportagem sobre a possibilidade de praticar ginástica no ambiente doméstico.

Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui



Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui

Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui


Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui


Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui


Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui


Nina Leen,
Ginástica com objectos domésticos,
sem data
imagem obtida aqui

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quarta-feira, 12 de Março de 2014

O país das proibições

O Irão é um país particularmente jovem. Setenta por cento da sua população tem menos de trinta e cinco anos de idade.
Mas para essa franja da população, os comportamentos, as aspirações e as diversões que associamos à juventude estão vedados ou dificultados.
Namorar, ir a festas, usar determinadas roupas, até ter um cão, tudo é proibido ou censurado. Tudo pode ter consequências.
Para grande parte da juventude iraniana, a sua pátria é o país das proibições.

O fotógrafo Mehran Hamrahi, no seu projecto "Iranianos, normais ou criminosos?" capta momentos com jovens em acções que noutros contextos seriam normais, mas que na realiade local os remetem para um padrão de delinquência passível de censura ou penas legais. Penas que poderão mesmo chegar à condenação à morte.


Mehran Hamrahi,
Mahnaz a aceder ao facebook,
da série "Iranianos, normais ou criminosos?",
Irão, Julho de 2013
imagem obtida aqui


Mehran Hamrahi,
Maryam a brincar com o seu cão,

da série "Iranianos, normais ou criminosos?",
Irão, Julho de 2013
imagem obtida aqui


Mehran Hamrahi,
Arash a dançar com amigos,

da série "Iranianos, normais ou criminosos?",
Irão, Março de 2013
imagem obtida aqui


Mehran Hamrahi,
Azin, uma cristã convertida, a rezar,

da série "Iranianos, normais ou criminosos?",
Irão, Julho de 2013
imagem obtida aqui



Mehran Hamrahi,
Mohammad a ser tatuado,
da série "Iranianos, normais ou criminosos?",
Irão, Julho de 2013
imagem obtida aqui

Mehran Hamrahi,
Ali a namorar com Feri,

da série "Iranianos, normais ou criminosos?",
Irão, Julho de 2013
imagem obtida aqui


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domingo, 9 de Março de 2014

Registo e reflexão

Quando se pensa em Denise Scott Brown não se pensa, por norma, em Fotografia. Scott Brown é arquitecta e urbanista, esposa e sócia de Robert Venturi, um dos mais marcantes pensadores da linguagem arquitectónica da segunda metade do século vinte.
É aliás co-autora de muitos dos projectos que valeram a Venturi o prémio Pritzker, o "Nobel" da arquitectura, em 1991. A não atribuição conjunta do prémio é vista por muitos como uma enorme injustiça e uma prova da desconsideração que ainda perdura relativamente às mulheres.
A obra de Venturi e Scott Brown lida bastante com a ultrapassagem do paradigma moderno e introdução na arquitectura erudita de elementos vernaculares e populares, o que no caso americano significava muitas vezes elementos ligados à sociedade de consumo e merchandising.
A fotografia era, e ainda é para muitos arquitectos, uma ferramenta de registo e de reflexão. E a imagem abaixo, de 1966, sendo maravilhosa, não foge a essa vertente funcional.

Denise Scott Brown, Lincoln and Pico, EUA, 1966
imagem obtida aqui
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sexta-feira, 21 de Fevereiro de 2014

Melodrama, faca e alguidar

A canadiana Kourtney Roy, a par duma bem sucedida carreira na fotografia de moda, desenvolve desde os seus tempos universitários uma série de auto-retratos, onde combina referências aos melodramas cinematográficos dos anos cinquenta, e ao cinema de terror, com um não disfarçado interesse pelo universo Kitsch.

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui


Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui


Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui

Kourtney Roy, Auto-retrato, sem data

imagem obtida aqui



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sexta-feira, 14 de Fevereiro de 2014

Coração vagaroso

Dizem que tenho um coração negro, de pedra.
Mas tu conheces-me melhor.
Sabes que é de carne. Sangue e músculo, sobretudo.

Mas têm alguma razão.
O meu coração não é normal.
É vagaroso, bate lento, num pathos sereno.

Só quando te acercas é que funciona com ritmo de gente…




Júlio Assis Ribeiro, SP_M_CRÇPDR_01, 2014
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quarta-feira, 29 de Janeiro de 2014

O Homem que desmentiu Descartes

O francês René Descartes foi um pensador que, no século XVII, desenvolveu um conjunto de teorias no campo da filosofia e da Matemática. Teorias que se revelam decisivas na ultrapassagem do pensamento escolástico vindo da idade Média tardia, e na instituição do paradigma moderno.
Entre muitas outras coisas,defendia que era o acto de pensar que constituía ontologicamente o Homem, e que esse acto não provinha da componente corporal, e animal, mas antes da alma."Assim, pela razão de não podermos conceber de modo nenhum que o corpo pense, estamos justificados em acreditar que toda a espécie de pensamento em nós existente pertence à alma.", lê-se a dada altura na sua obra "Paixões da Alma". O mundo do pensamento constituía-se assim à parte das sensações e das emoções.

Em 1994, o neurologista António Damásio, investigador e professor da University of Southern California, nos Estados-Unidos, pôs em causa este dualismo mente/corpo usando argumentos fisiológicos. A sua pesquisa centrou-se no estudo do cérebro em funcionamento usando moderno equipamento de imagiologia médica. Porém o seu ponto de partida não foi exactamente uma novidade, um caso recente. Na verdade, partiu do estudo da vítima dum insólito acidente de trabalho em 1848. 
Nessa data, Phineas Gage, de 25 anos, era capataz de uma equipa que trabalhava na construção de caminhos de ferro na Nova Inglaterra. Numa das muitas explosões que tinha que levar a cabo para abrir caminho, o jovem capataz foi atingido por uma barra de ferro que lhe trespassa o crânio. Apesar da gravidade do ferimento, e da perda de um olho, sobreviveu e recuperou.

No entanto, o seu carácter ficou irremediavelmente alterado. O responsável e competente Phineas Gage tornou-se um homem de comportamento errático, incapaz de tomar decisões, que destruiu a sua vida profissional, familiar e social em pouco tempo.

O seu caso foi alvo de atenção médica e, desde então, foi visto como exemplo, e prova, da relação entre lesões cerebrais e alterações de personalidade. Seis anos após a sua morte, em 1866 o seu crânio foi recolhido e encaminhado para a Universidade de Harvard onde se encontra depositado, conjuntamente com o varão de ferro que o mutilou, no Warren Anatomical Museum.

J B S Jackson,
Crânio de Phineas Cage e varão de ferro,
E.U.A., 1870
imagem obtida aqui
Analisando o crânio de Cage, Damásio concluiu que o ferimento afectara o chamado Córtex pré-frontal, zona que controla a personalidade e a emotividade. O que, no entanto, impressionou o neurologista não foi propriamente a alteração da personalidade, mas antes os aspectos funcionais em que esta se fez sentir. Embora mantivesse intactas as capacidades de linguagem e de raciocínio, o sobrevivente Phineas Gage era incapaz de manter um comportamento racional. E tal levou António Damásio a concluir que Razão e Emoção não se constituem independentemente, sendo, pelo contrário,  indissociáveis. O postulado cartesiano de Razão como coisa unicamente da Alma ficava assim posto em causa.

Durante muitos anos pensou-se que as únicas imagens de Phineas Cage que era possível obter eram as reconstruções elaboradas a partir do crânio. Mas em 2009, um daguerreótipo, até então erradamente tido como representando um baleeiro com arpão, foi identificado como sendo um retrato seu. O objecto que segurava não era um arpão excêntrico, era simplesmente a barra de ferro que o atingira no famoso acidente.

Autor não Identificado,
Phineas Cage,
E.U.A, sem data
imagem obtida aqui
Esta identificação foi confirmada por comparação morfológica com o crânio, e no ano seguinte, uma segunda imagem, uma provável cópia em papel de um outro daguerreótipo desaparecido,  descoberta nos espólio da família Cage comprovou definitivamente a veracidade da atribuição.

Autor não Identificado,
Phineas Cage,
E.U.A., sem data
imagem obtida aqui

As fotografias agora descobertas terão sido feitas pouco tempo após o acidente, a avaliar pelo aspecto jovem de Phineas, e numa mesma sessão. Terão sido feitas quando a fotografia era uma técnica ainda na infância, presa a dificuldades técnicas e a convenções que nos são hoje um pouco estranhas. Mas permitem-nos viajar no tempo e vislumbrar o operário que, sem o saber ou o desejar, desmentiu Descartes.

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