sábado, 4 de Outubro de 2014

As esferas de Richard Lindon

Autor não identificado,
Richard Lindon, o inventor das câmaras de ar esféricas,
Rugby, Inglaterra, 1880
imagem obtida aqui

A importância desta imagem pode ser apresentada por duas vias:
por um lado, é um raro exemplo de um homem que se expõe publicamente orgulhoso das suas esferas;
por outro lado, ela apresenta-nos o homem que, ao tornar as bolas uniformes e comparáveis, tornou possíveis todos os desportos de bola modernos.

Sem ele não existiriam aqueles fantásticos programas televisivos em que se leva duas horas a discutir se foi penalti ou não.

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domingo, 31 de Agosto de 2014

Os cadáveres de António Novais

Cada um tem as suas formas de aproveitar o seu tempo de lazer, e o autor destas linhas tem naturalmente as suas. Gosta de percorrer arquivos digitais (os arquivos em espécie, geralmente distantes, ficam fora do seu alcance temporal e financeiro) em busca de fotografias que conhece e, sobretudo, de imagens que desconhece.
Na dispersão que lhe é característica, tudo lhe interessa, e neste tudo algumas coisas em particular o cativam. As esquecidas turbulência e violência da primeira metade do século vinte português, são uma delas.

Navegando pelo motor de pesquisa do Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa, um pouco ao calhas, deparou-se-lhe um estranha e macabra imagem desta temática. Da ficha disponibilizada, sabe-se ser de 1908, da autoria de António Novais (ou Novaes, grafia mais provável na data em questão).

António Novais,
Cadáveres amontoados na morgue,
Lisboa, Portugal, 1908
imagem obtida aqui


Sem mais dados que esclareçam os factos que estão na sua origem, arrisca-se a seguinte contextualização. Os cadáveres amontoados da imagem, pelo seu número, poderão ser as vítimas da contestação aos resultados das eleições de Abril desse ano, realizadas com vista à obtenção dum governo de "Acalmação" que serenasse o país após o assassinato do rei D. Carlos e do príncipe-herdeiro, D. Luís Filipe, em Fevereiro desse ano.
Os mesmos factos que estão por detrás da espantosa fotografia de Joshua benoliel, com sinais de sangue numa parede.

Joshua Benoliel,
Sinais feitos com sangue pela população numa parede,
Lisboa, Portugal, 1908
imagem obtida aqui

Duas imagens dum país de costumes não particularmente brandos, enfim.

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quinta-feira, 3 de Julho de 2014

A limpeza

Autor não identificado,
Funcionários da Câmara Municipal do Porto
tapando  uma trincheira dos revoltosos,
Porto, Portugal, Fevereiro de 1927
imagem obtida aqui


A imagem acima é de autor anónimo e não é dotada de particulares qualidades. Mas aprecio-a porque há nela algo de metafórico ou simbólico, para vai além da sua simples natureza documental.

A imagem apresenta-nos os funcionários camarários do Porto a cobrir uma trincheira e a limpar uma barricada. Data de Fevereiro de 1927, possivelmente de 9 de Fevereiro, o dia seguinte ao fim de uma revolta de quase uma semana em que se disparou, matou e bombardeou na cidade do Porto, e nos seus arredores (ver A trincheira da morte).

Mostra-nos a limpeza física desse levantamento militar, mas de alguma forma remete-nos para uma outra limpeza, aquela que limpou da memória colectiva a brutalidade daqueles dias de Fevereiro de 1927, que tirando algum público interessado e especializado, parecem não ter existido para a população portuguesa.

É uma imagem de limpeza e de cobrimento. Mas expõe um encobrimento "manso" e eficaz, um encobrimento quase imperceptível e não imputável.

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domingo, 29 de Junho de 2014

Killing Becher

"Killing Becher" é um projecto do jovem fotógrafo e videasta francês Swen Renault.
Objecto de classificação complicada, chamá-lo de Fotografia fará disparar alguns alarmes dos mais puristas. Mas é um objecto que discorre obviamente sobre Fotografia.
Trabalhando com imagens fotográficas de depósitos públicos de água, um dos arquétipos da arquitectura industrial e anónima que o casal alemão Becher tomou como central na sua imensa obra, serial e repetitiva, uma obra que marca definitivamente a Fotografia das últimas décadas, com imensos admiradores e emuladores.
Mas as imagens não são nem originais de Renault, nem replicam exactamente os processos dos Becher. Swen Renault tinha pressa e pouca vontade de andar anos atrás de depósitos pelo mundo inteiro. Por isso usou o atalho típico do século XXI, pesquisou as imagens na internet e descarregou-as. Mas não pesquisou quaisquer depósitos de água, pretendia apenas obter registo de edifícios em derrocada, em demolição ou em evidente ruína. Depois recorrendo a programas de edição de imagem, reenquadrou as imagens descarregadas, retirou-lhes a saturação e aproximou-as em termos tonais às inconfundíveis fotografias do casal alemão. Uniformizou-as.
Por fim, emoldurou-as e apresentou-as "à La Becher", com o provocante título que as nomeia.

Quando algumas vozes críticam a "Nova Objectividade" alemã, ou a "Escola de Dusseldorf" se preferirem, dizendo que o seu pendor conceptual, iconoclasta, frio, matou a criatividade da Fotografia contemporânea, Renault contrapõe encenando a sua destruição.

Esta instalação pode não ser exactamente Fotografia para muitos, mas uma coisa é garantida, é um decerto um divertido olhar sobre o Mundo da Fotografia autoral do nosso tempo.

Swen Renault,
"Killing Becher",
França, 2013
imagem obtida aqui

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sábado, 28 de Junho de 2014

O verdadeiro Oeste de Solomon Devore Butcher

Solomon Devore Butcher,
auto-retrato,
E.U.A., 1886
imagem obtida aqui

Solomon Butcher, um americano que acompanhou a expansão do seu país para os novos territórios a oeste, tornou-se fotógrafo e procurou a fortuna registando os novos habitantes das grandes planícies.
Não teve sucesso financeiro, mas deixou-nos o extenso testemunho dum Oeste objectivo e verídico que, por vezes, era mais estranho que o da sua versão cinematográfica.

Leia mais aqui.

Solomon Devore Butcher,
A família Ball defronte da sua casa de terra,
Woods Park, Nebraska, E.U.A.,1886
imagem obtida aqui
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quinta-feira, 19 de Junho de 2014

O Macaco de Harlow

Quem, como o autor destas linhas, gosta de acreditar que tem alguma erudição científica e não desdenha demonstrá-la recorrendo a histórias com bichos, cita com alguma frequência duas experiências científicas, uma real, outra hipotética.

A primeira é a do Rato de Skinner, onde o bicho era inserido numa caixa com uma pequena alavanca. Nuns casos, quando o rato tocasse na referida alavanca, era recompensado com alimento, levando a que em pouco tempo passasse a tocar sistematicamente nela a fim de receber comida. Noutros casos, sempre que havia contacto, o rato recebia não comida, mas sim choques eléctricos, o que tinha como consequência que o animal passava a evitar tocar na referida alavanca. O objectivo de Burrhus Frederic Skinner, o autor da experiência, era verificar  o comportamento animal era determinado por condicionantes ambientais, o que se comprovou.

A segunda é a do Gato de Schrödinger, em que o bichano é teoricamente colocado numa caixa totalmente opaca e insonorizada. Dentro dela, encontra-se um mecanismo em que um contador Geiger é colocado junto a uma pequena dose de material radioactivo, tão pequena que poderá mesmo não fazer disparar o contador durante a hora que dura a experiência. Caso o faça, o contador accionará um martelo que partirá um frasco de ácido cianídrico. O que matará o gato.
Desde o momento em que se fecha o gato na caixa até à altura em que se abre a sua tampa, é impossível determinar o estado de saúde do bicho. Durante uma hora, o bicho está simultaneamente morto e vivo.
Com esta construção mental, o físico austríaco Erwin Schrödinger pretendia ilustrar de forma simples um problema da mecânica quântica, em que partículas podem num dado momento ter dois estados e posições diferentes.

Mas em matéria de maldade científica com bicharada no meio, gosto de juntar a estas duas experiências uma terceira: o Macaco de Harlow.

Harry Frederick Harlow foi um psicólogo americano que estudou a afectividade e as interacções sociais utilizando macacos em contexto laboratorial, gerando alguma controvérsia.

Na mais famosas das suas experiências, macacos Rhesus muito jovens eram separados das progenitoras e colocados numa divisão com duas "mães" adoptivas inanimadas. Estes simulacros maternais eram bastante distintos, um era dotado de uma face amigável e de pêlo fofo, ao passo que o outro consistia numa estrutura cilíndrica de rede metálica, com uma cabeça tosca e um biberão que dispensava leite ao pequeno macaco. O objectivo de Harlow era pôr em causa uma teoria vigente à época, que declarava que as relações afectivas resultavam da satisfação de necessidades básicas como a alimentação. E conseguiu-o.
Os macacos submetidos à experiência demonstravam um mesmo padrão comportamental. Sem quaisquer interacções dignas desse nome, as pequenas criaturas agarravam-se obsessiva e neuroticamente à mãe dotada de pêlo, deslocando-se raramente ao modelo de rede, e apenas no tempo estritamente necessário para se alimentarem. 

A fotógrafa Nina leen, que tinha mais ou menos o pelouro das histórias estranhas e/ou com bichos da revista LIFE, teve a oportunidade de registar a cores uma dessas infelizes cobaias, em 1964. 

Nina Leen,
O macaco de H. F. Harlow,
E.U.A., 1964
imagem obtida aqui


Se se sentir de alguma forma incomodado com estas pequenas histórias de alguma maldade com animais, não se preocupe. É sinal que, tal como o Macaco de Harlow, você é apenas humano...

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quarta-feira, 11 de Junho de 2014

A trincheira da morte

Para a população pouco politizada e pouco letrada, que constituía a maioria da população da cidade do Porto e seus arredores, em meados do século vinte havia coisas de que não se falava correntemente. Mesmo entre o operariado com alguma militância política (clandestina) havia coisas de que só se falava com quem era tido por gente de confiança.

Quem cresceu nos anos quarenta e cinquenta do século passado, em volta daquela cidade, tinha muitas vezes apenas uma noção bastante vaga do que lá tinha acontecido um pouco antes, em Fevereiro de 1927. Sabiam, a partir de meias conversas e de coisas depreendidas, que houvera lá combates e bombardeamentos. Sabiam que houvera algo tão grave que uma zona ganhara o título, em tom tão lendário, de "trincheira da morte". Mas a natureza e os pormenores dos factos eram contornados e o evento desvanecia-se na imprecisão e no silêncio.

Aquela mudez colectiva anulava estranhamente um acontecimento de escala significativa.
Na madrugada de 3 de Fevereiro de 1927, escassos meses após o inicio da ditadura militar que desembocaria no Estado Novo, foi desencadeada uma revolta militar que visava repor a ordem republicana (e, em larga medida, repor o hegemonia do Partido Democrático). As primeiras unidades, previa o plano, sublevar-se-iam na cidade do Porto,  e a elas juntar-se-iam mais tarde aquartelamentos de Lisboa e forças de outras cidades.
O primeiro ponto do plano decorreria com o previsto, os revoltosos controlariam a maior parte do Porto, remetendo os militares fieis aos governo no interior da cidade à defensiva. Mas tudo além disso ficaria aquém do planeado. A 4 de Fevereiro, a revolta resumia-se a pouco mais que algumas localidades do norte de Portugal e do Algarve. Em Lisboa, as unidades simpatizantes hesitavam, permitindo ao Governo o contra-ataque. 

Autor não identificado,
Soldados da Infantaria nos camiões que
os conduziram ao local de embarque para o Porto
Vila Nova de Gaia, Portugal
Fevereiro de 1927
imagem obtida aqui


A artilharia governamental que atacava as posições rebeldes do Porto desde o início, a partir da serra do Pilar, no lado oposto do rio Douro, ainda recuou por força dos bombardeamentos da artilharia de Amarante que se juntara à revolta, mas estabilizou posições no Monte da Virgem, continuando a fustigar as forças rebeldes. Reforços vindos de Aveiro, permitiram depois ao Governo tentar a entrada na cidade do Porto a partir do sul.
Os revoltosos, entrincheirados com metralhadoras, conseguiram porém rechaçar o assalto provocando bastantes baixas. A violência dos combates seria tal que à posição revoltosa situada nas ruas de Santa Catarina e 31 de Janeiro a população atribuiria o referido título de "trincheira da morte".

Ferreira da Cunha,
Tropas fiéis à Ditadura Militar combatendo a revolta no Porto,
Vila Nova de Gaia, Portugal,
3 de Fevereiro de 1927
imagem obtida aqui

Autor não identificado,
A artilharia que fez fogo sobre o Porto,
Monte da Virgem, Vila Nova de Gaia, Portugal,
Fevereiro de 1927

Autor não identificado,
Conflitos nas ruas de Santa Catarina e 31 de Janeiro,
Porto, Portugal,
Fevereiro de 1927
imagem obtida aqui
Apesar do vigor combativo, dois dias após o início da revolta, as tropas revoltosas encontravam-se completamente cercadas e nem a adesão tardia de algumas forças em Lisboa (da Guarda Nacional Republicana e da Marinha, sobretudo) seria capaz de inverter o fim previsível. Sob fogo constante e  bombardeamentos, a revolta resistiria ainda mais uns dias até que o fim das munições e a desesperança acabaram por impor a rendição na madrugada de 8 de Fevereiro.

A cidade do Porto sairia daquela que seria a primeira revolta do chamado "Reviralho" com um triste balanço: mais de uma centena de mortos, entre civis e militares, mais de meio milhar de feridos e um número enorme de casas e edifícios públicos severamente danificados

Perante esta descrição dos factos estranha-se o apagamento e desconhecimento geral que os engoliu.
Poderá parecer paradoxal este entorpecimento da memória colectiva. À primeira vista, dado que um dos principais factores de legitimação simbólica do Estado Novo era o retorno à ordem e o fim da instabilidade política, omitir o esmagamento da revolta de 1927 não parece ser uma estratégia muito consequente. Por outro lado, pela parte dos vencidos, a glorificação dos mártires republicanos, mesmo tendo em conta a censura, foi algo que não foi insistentemente perseguido.

Na verdade, ambos os lados concordaram em lembrar vagamente.

Apesar do seu inegável autoritarismo e postura ordeira, o Estado Novo não era um regime militante, de grandes massas, de retórica militar hiperbólica. Apesar de manifestações e modismos que copiava e compartilhava com os congéneres de Itália, Espanha e Alemanha, de toda a mitologia nacionalista que invocava, o seu ideal era que Portugal fosse um local onde nada se passava, e onde o que se passara, passara e não havia que remexer muito. O regime gostava de acreditar que a ordem que impusera pelas armas, não fora na verdade imposta, fora antes o produto dum anseio popular. Gostava de lembrar a "desordem" anterior, mas sem frisar excessivamente o pé militar e policial que colocara sobre a sociedade portuguesa.

Quanto à oposição republicana, falhadas as várias revoltas "reviralhistas", na sua luta contra a ilegitimidade da ditadura a última coisa que lhe traria proveito, e apoio popular, era invocar os tempos de lutas internas no sector republicano e o seu próprio passado de conquista do poder pela força militar. Determinou-se falar da imposição forçada da ordem salazarista (Salazar erguera-se entretanto como personificação do poder) contra uma ordem constitucional republicana, mas sem pormenores que manchassem a imagem.

Esta confluência de interesses permitiu eclipsar quase totalmente a memória dos conflituosas e perigosas primeiras décadas do século vinte português. A vaga memória dos anos quarenta e cinquenta passou a quase coisa nenhuma. No Porto, e no resto do país, já quase ninguém sabe da "trincheira da morte".

O retrato almejado pelo Estado Novo, de Portugal como país de brandos costumes, tornou-se hegemónico e falsamente evidente. Sendo muito elíptico em relação à verdade, é no entanto confortável.

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