terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Leila Alaoui - Obituário

A artista e fotógrafa franco-marroquina Leila Alaoui faleceu ontem em resultado de ferimentos sofridos nos atentados de Ouagadougou, Burkina Faso, em 15 de Janeiro.
Alaoui encontrava-se aí ao serviço da Amnistia Internacional, tendo sido alvejada num braço e numa perna no ataque ao café-restaurante Cappuccino, numa situação clínica considerada inicialmente como segura, sem risco de morte.

O trabalho fotográfico de Leila Alaoui lidara sobretudo com a questão da identidade, sobretudo a identidade marroquina, e com o êxodo a qualquer custo, rumo à Europa, das juventudes africanas.


Leila Alaoui,
Sem título, da série "No Pasara",
Marrocos, 2006
imagem obtida aqui



Leila Alaoui,
Sem título, da série "No Pasara",
Marrocos, 2006
imagem obtida aqui
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sábado, 17 de outubro de 2015

Os alquimistas saltimbancos

Mathew Brady tomou a si a tarefa de registar a carnificina que foi a guerra civil americana, um conflito em que se pressentiu a desgraça inominável que seria a 1º Guerra Mundial.
Nos dois conflitos misturaram-se novas armas, que a indústria conseguia produzir em volumes espantosos, com tácticas e lideranças militares pré-industriais.

Mathew Brady e o seu trabalho eram também, de certa forma, uma mistura de antes e depois. A fotografia era, na década de sessenta de oitocentos, uma novidade tecnológica. O seu uso no registo de combates militares fora poucas vezes tentado antes. Havia, claro, na década anterior, o exemplo da Guerra da Crimeia, acompanhada pelo inglês Roger Fenton, e o esmagamento da revolta indiana, fotografado pelo italo-britânico Felix Beato, que também andara pelos campos de batalha da Crimeia. Mas, para além deles pouco mais.

As razões dessa escassez advinham do facto da Fotografia, uma técnica moderna, ser praticada em moldes pré-industriais. Nessas suas primeiras décadas, a fotografia implicava ser totalmente produzida pelos fotógrafos, que faziam não só as soluções químicas, como os suportes fotográficos, ou seja, as placas de vidros emulsionadas e o papel fotográfico. Com a agravante da técnica então mais viável, o colódio húmido, implicar que, entre a produção do suporte em vidro, a captura da imagem e o seu processamento, não pudessem passar mais que uns minutos.
A imagem dum fotógrafo de guerra em 1864, como Brady e os seus associados, não era nada parecida com o estereótipo do corajoso e saltitante herói que, com uma ou várias câmaras, gravita em torno da acção, registando-a nos seus momentos decisivos. Era muito mais a dum alquimista saltimbanco de carroça, carregado e lento, que chegava aos campos depois da matança, fotografando os efeitos da destruição.

Era, passe a distorção,  um equivalente moderno dos oportunistas medievais que vasculhavam os mesmos cenários, recolhendo o que podiam dos despojos e dos mortos.


Mathew Brady,
Fotógrafos e carruagem,
E.U.A.,1864
imagem obtida aqui

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Bioco

O bioco, a incógnita indumentária das mulheres do povo da zona de Olhão, Portugal, foi comum até meados do século passado. Há registo de desagrado das autoridades e até de tentativas de repressão por , nos finais do século dezanove, o considerarem um anacrónico vestígio da dominação muçulmana do Algarve, propiciador, espante-se, de actos de libertinagem.
Mas  não foi a proibição de 1892, nem tampouco o assédio das autoridades, o porquê que o remeteu para os baús familiares e os museus. Esse trabalho tem ser atribuído verdadeiramente à evolução dos costumes e a uma relativa uniformização cultural da sociedade portuguesa, no terceiro quartel de novecentos.

Artur Pastor, 
Mulher com bioco, 
Olhão, Portugal, 1943-1945
imagem obtida aqui

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sábado, 5 de setembro de 2015

Uma versão petrificada

O lago Natron é profundamente alcalino, com o PH da soda caústica. Mas não é imediatamente mortal, alguns (bastantes) seres vivos adaptaram-se e conseguem ali subsistir. Porém, aqueles que, doentes, enfraquecidos e moribundos, se deixam permanecer demasiado em seu contacto, transformam-se lentamente numa versão petrificada de si próprios.

Não é uma metáfora sobre certos países, mas podia ser...

Nick Brandt,
Flamingo petrificado reflectido,
Lago Natron, Tanzânia, 2010
imagem obtida aqui


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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

O dia em que se sacudiu o pó dos dias

No dia 25 de Abril de 1974, Ana Hatherly, como muitos milhares de portugueses, ignorou as indicações para permanecer no recato do lar. Saiu à rua com um grupo de amigos e uma câmara fotográfica.
Quis ver as coisas no dia em que finalmente as coisas aconteciam.

E registou esse dia duma forma pessoal, paralela às grandes reportagens de Eduardo Gageiro, Alfredo Cunha e Carlos Gil. Ao contrário destes, não fotografou exactamente os instantes decisivos e os protagonistas centrais da acção.

O seu registo foi sobretudo o da vibração e o do pulsar das gentes que se apressavam, e juntavam, num momento em que as esperanças incertas sacudiam o pó do dias.


Ana Hatherly,
Sem título,
Lisboa, 25 de Abril de 1974
imagem obtida aqui

Ana Hatherly,
Sem título,
Lisboa, 25 de Abril de 1974
imagem obtida aqui


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quarta-feira, 15 de julho de 2015

Um planeta esquisito

Plutão sempre foi um planeta esquisito.
Longínquo, descoberto muito tardiamente, foi o planeta X até que uma menina de dez anos,  Venetia Burney, neta de Falconer Madan, um notável de Oxford,  teve a capacidade de o baptizar com o mitológico nome de Plutão, divindade grega que lidava com os mortos e a riqueza.
Durante dezenas de anos foi o nono planeta do nosso sistema solar, até que foi afastado desse panteão e entrou no limbo dos chamados planetas-anões.

Este anão, desqualificado, de órbita excêntrica, afastado,  foi sempre mais imaginado que visto. As suas melhores representações eram não fotografias, mas criações de ilustradores especializados. As fotos do planeta eram pouco mais que a miragem dum míope, dado que nenhuma sonda passara perto para o retratar com pormenor. A agência espacial americana, quando plutão ainda era membro do clube dos planetas, sentiu essa falha como algo a colmatar. Organizou o lançamento da New Horizons em Janeiro de 2006, apenas sete meses antes da  União Astronómica Internacional empurrar a pobre criatura celeste para a segunda divisão.
Fosse a Astronomia uma empresa cotada em bolsa e a missão teria ficado insolvente.

Mas felizmente não o é.
E agora Plutão tem direito a finalmente sorrir para o retrato. 
Ao fim de nove anos, a nave aproximou-se o suficiente para fazer uso da Long Range Reconnaissance Imager, a câmara fotográfica criada de propósito para a missão. As primeira imagens não são ainda as definitivas, já só ontem a sonda atingiu a proximidade máxima, e ainda levará um tempinho para revelar o detalhe.

Mas do que foi divulgado, podemos com certeza dizer o seguinte: Plutão continua esquisito. Citando John Spencer, do Southwest Research Institute do Colorado, uma das entidades envolvidas na missão "as imagens revelam apenas que Plutão é um planeta realmente esquisito. Tem algumas áreas muito escuras, outras extremamente claras, e não sabemos nada sobre o que são ainda".

NASA, Plutão, 2015
Imagem obtida aqui


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segunda-feira, 13 de julho de 2015

A arte de humilhar

Dificilmente se poderá considerar a humilhação como uma ferramenta produtiva da diplomacia. Mas, nem por isso, o seu exercício deixou de ser aplicado nas relações entre povos.

Em 1919, ao fim de seis meses dum armistício que finalmente fez parar a fábrica de morte criada pela primeira guerra mundial, as nações vencedoras (que haviam entrado para o conflito com a mesma inconsciência militarista que reinava no estado-maior alemão) forçam uma Alemanha que não tinha alternativas a um tratado desastroso. A humilhação é consumada em Versailles, na França, mas para muitos esse foi apenas o acto final dum processo que começara numa carruagem de caminho-de-ferro, em Novembro de 1918, em Compiègne, também na França, onde os negociadores alemães tiveram de aceitar tudo o que lhes foi posto sobre a mesa.

Em 1939, a monstruosidade gerada por um tratado impossível trouxe de novo os combates à Europa. A França, um dos anteriores vencedores,  com as suas tropas trucidadas pelo moderno exército alemão, é desta feita submetida à humilhação. Em junho de 1940, os nazis recuperam a carruagem privada do marechal Foch, a tal de Compiègne, e impõem nela os seus termos a um inimigo sem alternativas. Dividem o país, retiram-lhe efectivamente a independência, e impõe-lhe o saque dos recursos.

Depois, a carruagem foi levada para Berlim para ser um monumento da vitória.

Fechava-se o círculo de humilhação e castigo colectivo, terá pensado a liderança alemã.

Nada estaria mais longe da verdade.

Hugo Jaeger,
O dia anterior à assinatura do armistício,
Compiègne, França, 21 de Junho de 1940
imagem obtida aqui

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