sábado, 30 de setembro de 2017

Coragem individual e clandestina

Henryk Ross foi um judeu polaco que, mercê da obsessão burocrática dos ocupantes nazis, foi recrutado para ser o fotógrafo da administração do ghetto de Łódź .

Como as autoridades alemãs forneciam apenas o filme necessário para o trabalho atribuído, que ia de imagens de propaganda a fotografias de identificação, Ross engenhosamente arranjou uma forma de fazer três exposições no espaço de negativo em que habitualmente se faria apenas uma.
Com os dois terços de película que conseguia poupar, arriscando a sua vida num acto de resistência, realizou um retrato único da vida diária e do terror do ghetto de Łódź. 


Em 1944, com o encerramento final do ghetto em andamento, enterrou cerca de seis mil negativos, guardados no interior de latas encerradas numa caixa de madeira, na esperança que sobrevivessem com prova. 

Após o fim da guerra, conseguiria resgatar a caixa, mas cerca de metade dos negativos estavam danificados para lá de qualquer recuperação. Mas os restantes seriam suficientes para nos transmitir uma realidade que está para lá de qualquer negação.


Em 1961, Henryk Ross seria testemunha no julgamento de Adolf Eichmann, e algumas das suas fotografias clandestinas seriam usadas como prova.

Henryk Ross,
Crianças a serem levadas para o
campo de concentração de Chelmno nad Nerem,
Polónia, 1942
imagem obtida aqui

sábado, 11 de março de 2017

As casas que fumegavam

Um arquitecto que participou no Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal em meados dos anos cinquenta (infelizmente não me lembro do nome), referiu num texto que uma das coisas que mais o marcou nessa observação foi o fenómeno das casas que fumegavam.

Sobretudo no inverno, e sobretudo no Norte de Portugal, era comum ver as casas populares rurais a libertar fumo pelas telhas, pelas janelas (por vezes simples buracos), e pelas portas. 

Num país marcado pela tuberculose, frequentemente as casas mais pobres não eram dotadas dos mais básicos sistemas de ventilação. A ausência de uma mera chaminé era vulgar e a divisão que fazia as vezes de cozinha, de sala e por vezes também de dormitório era um cubículo de paredes de pedra nua tisnadas de fuligem e fumo.

Esta fotografia de Jorge Henriques, tirada numa rua do Porto, prova-nos que as casas que fumegavam não era um exclusivo do campo.

Jorge Henriques,
Sem título,
Porto, Portugal, 1950-1971
imagem obtida aqui
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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Tudo diferente e tudo igual

Uns dias antes de Hitler chegar a chanceler da Alemanha desejou-se um bom ano. E houve a habitual excitação acerca dos primeiros bebés do ano.

Para esses bebés, os anos seguintes, os seus primeiros, não seriam bons anos.

Het Leven,
Os bebés do Ano Novo,
Berlim, Alemanha, 1933

imagem obtida aqui


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